A autoficção de Natalia Timerman começa com um encontro: na sala de embarque do aeroporto, a autora avista o médico que cuidou de seu pai nas últimas semanas de vida. A partir deste encontro segue um fio que leva a escritora à vida e à morte de seu pai, e também à sua própria vida e de todos aqueles que vieram antes dela.
Com esse fio, a autora borda com crueza e honestidade um cenário possível frente ao impossível de haver-se com a morte. A morte é inapreensível: ela aponta para o limite, para o não, o nunca mais, o impossível, o fim. Apesar de abstrata, a morte do outro nos toca concretamente: naquela notícia que não pode mais ser compartilhada, na lembrança do que a pessoa gostava – sim, no passado – e Natalia nos mostra com delicadeza que as mesmas palavras que denunciam a morte, podem indicar uma saída, e que com a ajuda delas pode-se fazer do nunca mais alguma coisa.
As Pequenas Chances é um livro de memórias e invenções, e isso tem em comum com o processo de uma análise. Como escrever um livro, em que através das palavras cria-se uma narrativa, ora composta de memórias, ora de invenções, uma análise é também feita de palavras e silêncios que, costurados, esboçam algumas possibilidades de vida.

